sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Pé! Eu te amo! Eu amo cada coisinha em mim!

Muitas coisas me aconteceram nesses últimos 2 meses e por indisposição – entre outras causas – nada foi parar no Chuva de Containers. Entrei em depressão senhores! Entenda DEPRESSÃO como um período de reflexão em que estive desmotivada a fazer coisas que habitualmente gostava. Não contei para vocês. Melhor assim. Este blog nunca nasceu para ser triste. Aliás, a fossa de Mariana Martins não durou muito tempo, graças a Deus! Então saibam que a ausência nesse blog nem foi por causa exclusiva de ocupação com os estudos, mas foi pelo tempo que tirei para tratar minhas descobertas depois da primeira cirurgia. É que caiu a ficha que o ser humano é uma casquinha. Que o bisturi, esse instrumento indecente, põe fim em alguém em poucos minutos. Agora, plenamente convalescida, sinto uma culpa danada de ter deixado de escrever coisas que participaram desse meu grande amadurecimento pessoal. Tudo aconteceu muito rápido. Nesse momento eu reconheço: foi preciso!

Algum dia você já acordou e disse: “Pé adorado! Lindo! Macio! Eu te amo!” ?

Que fosse “Pé áspero! Da unha encravada! Cheio de bolhas! Eu te amo!”?

Nunca né?

É por isso que todo mundo devia ver a cirurgia de amputação de um pé!

Eu não chorei. Eu não senti enjôo. Só fiquei em choque! A cirurgia foi mais rápida que todas as outras que já tinha acompanhado. Mais rápida que extração de um tumor de 15 centímetros de um testículo, mais rápida que a reconstrução de um fêmur comissurado, mais rápida que by pass de artéria poplítea. Amputar um pé durou 50 minutos! O motivo da amputação: Diabetes. Essa doença causa lesão das células que revestem o interior dos vasos sanguíneos. Assim, células de defesa no sangue não conseguem sair do vaso para combater uma infecção que comece por pequenos machucados. O resultado é um pé neuropático, infeccionado, que pode chegar perder a perfusão sanguínea. É o pé diabético. Se esse pé inútil não for amputado, torna-se problema para o resto do corpo. A infecção se espalha e a pessoa morre.

Para chegar ao ponto de perder um pé por esse motivo, muita omissão do paciente aconteceu. E, sim, o paciente que perdia o pé naquela mesa de cirurgia era de simples condição social. Ele não tinha consciência que as coisas chegariam a esse ponto e não foi instruído para evitar aquilo. O paciente era um velhinho que provavelmente chegou aos serviços de saúde para pedir ajuda calçando um chinelo havaianas azul.

A minha reflexão nessa hora foi admitir que a maioria dos pacientes que se humilham nas filas de atendimento do pronto socorro são de condição humilde. Falta instrução a essas pessoas para prevenção de doenças. E a saúde - que pelo SUS é deficiente de recursos e pelo meio privado não sai barata - falha justamente para quem mais necessita: quem tem pouca renda.

A segunda reflexão não foi pela injustiça social de privar atendimento de saúde a quem tem pouca renda. A segunda reflexão foi puramente existencial. É que bisturi circula a canela do paciente em 10 segundos. O pé doente é encapado por uma sacola plástica no início da cirurgia. A amputação prossegue pela dissecação de camadas. A pele o bisturi já levou! O cauterizador vai rompendo a gordura. Os vasos sanguíneos são amarrados e depois cortados pelo cautério também. O osso é cerrado por uma cordinha metálica dentada. ‘Cera de osso’ é o nome da massinha que veda o buraco que a medula óssea ocupa. O soro lava tudo e os pontos terminam de fazer o cotoco de perna. Um cotoco é uma coisa feia! Murcha! E, sim! Nessa hora dá vontade de chorar. O pé sai inteiro dentro do saco plástico de cor específica para restos hospitalares orgânicos.

Mas então... e se o bisturi subisse? Subisse... subisse... subisse...

Sobrava um corpo dentro de um saco plástico?


Passei esses últimos três meses formulando RESPOSTAS.

Não as tenho.

4 comentários:

.ailton. disse...

interessantíssima a reflexão, mariana.

provavelmente tu, como eu, pensaste: em que parte do corpo está a vida?

bom, pelo menos sabemos que no pé não é.

ou: quando o pé se separa do corpo, ainda é o pé do dono? ou é um lixo orgânico hospitalar? o que é um pé fora do corpo?

isso me dá medo.

Marcella disse...

Amiga!!!
Não se desespere... a vida é assim mesmo, subjetiva demais, injusta demais, e reflexiva DEMAIS!
Nem tudo nos dá respostas, nem todas as perguntas nos dão respostas e muito menos as respostas geram respostas.
Então, fazer o que? Viver e amar o pé, a mão, enfim, AMAR.

Gostei do texto!

Boa sorte e vê se encontra um Doutor McDreamy por aí!!!
BJUS

Luciano Oliveira disse...

Acho que depois dessa eu vou amar mais meu pé. Que bom vc voltar a postar.

Jeferson disse...

Realmente o corpo é muito frágil, mas a mente é ainda mais sensível.
(não precisa nem de bisturi)