segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Como adquirir as impressões digitais de um cadáver murcho?

Primeira semana de aula. Período novo, matérias novas! Estou satisfeitíssima porque, enfim, terei Medicina Legal. Essa disciplina abrange os conhecimentos de natureza médica e biológica que são colocados a serviço do universo jurídico. Os que convivem comigo - ou lêem esse blog há algum tempo - sabem que sou muito interessada por esse assunto. Minha mãe explica esse interesse pelo fato de que com quatro anos eu queria ser juíza (nem lembro que eu queria isso, provavelmente nem sabia o que era essa profissão.). Agora - como candidata a médica (quem sabe legista) – mantenho a meta: servir ao Direito constituído.

Receber doses semanais de conhecimento sobre Medicina Forense fará com que nesse blog chova informações cadavéricas. O texto de hoje já está dentro dessa promessa e sai sem antes ter assistido qualquer aula ainda. As informações e imagens vêm de um livro que me emprestaram:
[Nome: Medicina Legal. Autor: Eduardo Roberto Alcântara Del-Campo. Editora: Saraiva. 5ª edição. Páginas: 84 e 85.]

Hoje, o Chuva de Containers ensina para você como tomar impressões digitais de um
cadáver.

A pele possui duas camadas. Uma superficial, epiderme, e outra adjacente e mais profunda, derme. As ondulações que formam os desenhos papilares ou digitais são circunvoluções da epiderme que se estendem sobre glândulas, terminais nervosos e vasculares da derme. As impressões digitais são variáveis de indivíduo para indivíduo e não se repetem nem mesmo em
gêmeos univitelinos. Por isso os desenhos papilares são importantes ferramentas para diferenciação e reconhecimento de uma pessoa.

Para se colher as impressões de um indivíduo vivo, procede-se de forma simples e bem conhecida. Usa-se uma tinta apropriada, um rolo para entintamento dos dedos e o papel impresso destinado ao recebimento das impressões.

O dedo de um ser humano vivo possui um tônus próprio que permite a pressão da digital sobre o papel para reproduzir satisfatoriamente o desenho papilar. Para se obter as impressões digitais
de uma pessoa que faleceu recentemente, o procedimento ainda é efetuado sem dificuldades. Basta que o pesquisador efetue a pressão do dedo do morto sobre o papel. Contudo, há obstáculos quando a pessoa faleceu há mais tempo e o corpo se encontra em rigidez cadavérica, amolecido, murcho ou em início de putrefação. Para tudo há um jeitinho. O jeitinho para solucionar esse problema é descrito no livro citado.

A rigidez cadavérica não é óbice para a tomada das impressões digitais, podendo, no máximo, dificultar bastante a sua execução.

O amolecimento excessivo dos tecidos ocorre, por exemplo, nos corpos dos afogados. Normalmente basta que o pesquisador tenha cautela de limpar os dedos do cadáver com um pouco de álcool e em seguida aplicar a tinta.

Em alguns casos de emurchecimento mais avançado preconiza-se a injeção subdérmica de um líquido inerte, como parafina ou a glicerina, com finalidade de devolver a conformação da extremidade digital e permitir a coleta de impressões.

Para os corpos em decomposição é necessária a retirada da luva cadavérica, ou seja, a pele que recobre os dedos da mão do cadáver. [O desenho explica como é a retirada dessa luva cadavérica. Corta-se transversalmente a pele do dedo alcançando com o corte a área de um anel (1). Depois, a pele do dedo é arrancada como um preservativo (2)]. Após isso, o pesquisador veste a pele do cadáver sobre sua própria mão, previamente protegida por uma luva de borracha (3). [É a hora de ver se a capinha de dedo do morto serve no seu dedo. Hehe]. Enfim, pode-se tranqüilamente fazer a tomada das impressões digitais (4 e 5).


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Da Música para a Medicina. Permanece a sensibilidade.


@rodrigoocariz pertence a minha turma de Medicina atualmente. Rapaz de 20 anos, sorridente. Veio transferido de uma faculdade de Medicina do Rio no início do ano de 2010. Começamos a nos aproximar pela internet e numa das conversas para conhecer melhor meu novo colega de classe, ele conta sobre sua convicção de estudar Medicina. Mas essa certeza nem sempre existiu.

Eu desisti da Música pra fazer Medicina! É sério! Tinha o cabelo na cintura e já tocava violão aos 7 anos. Iria fazer Instituto Souza Lima em São Paulo e tentar uma bolsa na Blerkley em Boston. Queria ser maestro. Tentaria regência e composição.

As coisas foram mudando. Comecei a conversar muito com músicos. Falei com o maestro da Orquestra do Teatro Abril na época em que a versão em português do Fantasma da Ópera estava em cartaz. Ele me contou que tinha se formado na Unesp em regência e composição. Exatamente como eu queria. Ao me explicar sobre a trajetória que teve de seguir para ser maestro, fui desmotivado. São só 8 vagas por ano nessa Universidade e piano é instrumento obrigatório para o curso. Geralmente, os que entravam eram aqueles que tocavam o instrumento desde os 4 anos.

Meu pai* viu que eu estava em dúvida. Ele é o médico cirurgião Félix. Começou a me levar pra assistir as cirurgias que ele efetuava. Fui gostando cada vez mais!

Certo dia, fui num casamento. Um amigo do meu pai veio me perguntar se queria ainda fazer Música. Falei que cogitava fazer Medicina e ele me replicou assim: “Você pode ser médico e músico, mas você não pode ser músico e médico".

Fiquei com isso na cabeça. Fiz os vestibulares. Não tinha passado em lugar nenhum. A seletividade para Medicina era tão grande como para a Música e isso aumentava as minhas dúvidas. Foi então que um dia, cheguei em casa e vi uma foto em cima da mesa. Era de um menininho, sabe? E nela estava escrito com letra de criança:

“Para Tio Félix: Deus criou a terra, o céu e o mar, e criou você pra poder me curar.”

Quando eu li isso eu tive certeza que queria Medicina.

Nos momentos de alívio das matérias da faculdade, vou à casa do Rodrigo para tomar chocolate quente e o ver tocar violão. É bonito! Arrisco dizer que nunca vi alguém tocar igual. Ele não pula nenhum acorde e não é necessário cantar a música para saber qual é.

____________________________________________

*O pai do Rodrigo é o Doutor Félix Carlos Ocáriz Bazzano. Cirurgião pediatra, atual reitor da Faculdade de Medicina de Pouso Alegre – MG. Professor da Faculdade de Medicina de Alfenas – MG. Cirurgião pediatra do Hospital Alzira Vellano de Alfenas – MG. O primeiro, e – até então – único, médico a separar duas crianças siamesas no INTERIOR de Minas Gerais.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Vende-se Veias.

Eu pedi ajuda ao @Will__Martins estudante de Ondontologia do 6º período da UEPG Universidade Estadual de Ponta Grossa para escrever esse texto. Mas ele me enrrolou, enrrolou... e não me arrumou material nenhum. Então, essa postagem sai apenas com o material que consegui fotografar numa feira de artefatos Odontológicos na minha Universidade (UNIFENAS-Alfenas-MG).

Uma feira como essas acontece no início do ano, quando estudantes de Odonto precisam montar sua maletinha de apetrechos. “O curso de Odontologia sai caro”, disse William, que estima um gasto de 12 mil reais extra-mensalidade com materiais necessários para cursar disciplinas práticas durante todo o curso.

A feira é iniciativa de uma loja de produtos odontológicos da cidade de Alfenas-MG que faz um acordo com a Universidade. A loja sai na frente de outras quando leva seus produtos ao consumidor/aluno em seus intervalos entre aulas nos corredores.

As mesas de exposição dos objetos eram bem atrativas. As ferramentas utilizadas são muito coloridas e a variedade de brocas para o temido “motorzinho” causa surpresa. No meio de tudo, duas coisas me chamaram mais a atenção. A boca cheia de buracos e os ingredientes para fazer gengiva de dentadura.

Um estudante de Odontologia compra uma arcada dentária com 32 dentes problemáticos. Cada dente tem um problema diferente, uma cárie em local diferente. A proposta da peça é fornecer ao estudante um produto que imite a dureza do dente de verdade. Na peça se treina diversas possibilidades de restauração. No final do curso de Dentística Operatória, dentes perfeitos deverão ser apresentados. A dentadura é guardada pelo estudante como objeto de decoração. No futuro, as arcadas vão parar de enfeite na mesa do consultório do profissional. Às vezes são até usadas para ensinar crianças a escovarem os dentes direitinho.

Um pouco menos chamativo que a arcada dentária - mas, talvez, até mais interessante - um kit de resinas promete confeccionar a mais perfeita gengiva para a sua dentadura! A prótese deve imitar exatamente a cor natural da gengiva do paciente. Mas essa cor não está pronta. Existem seis frascos diferentes de resina com tons variados de rosa. Misturando esses tons, obtem-se a cor da gengiva da dentadura.

Além das resinas, o kit vem com dois potinhos de VEIAS! Isso mesmo: veias ou condutos de sangue. Um potinho é de veias roxas e outro potinho de veias vermelhas. Claro que não são veias de verdade meus leitores! Mas imitações sintéticas inteligentes de material ultramegapower avançado tecnologicamente. Se a pessoa tem a gengiva mais escura, veias roxas são mais utilizadas. Para uma gengiva mais vermelhinha, usam-se as veias do outro potinho. É lindo! Fazer gengiva de dentadura é mais ou menos como brincar de massinha no primário.

"Sistema Tomaz Gomes de Caracterização" é o nome do Kit. Nome pomposo. Eu também achei.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Nasceu!


O nome dela é Felícia Martins Araújo. É a minha cara não acham? Os contornos belos são da mãe aqui. Do pai biológico vem o cabelo ruivo e o olho claro. Mas aquele ogro de homem fugiu, não quis saber da menina. Quem vai assumir ela é meu atual namorado que diz emocionado pelo telefone: "Vou amá-la muito, como se fosse minha. Ela é minha!". Estou muito feliz! Fefê é muito calma. Não acorda de noite! Não chora! Não faz cocô, nem racha meu peito ao mamar! Até hoje gastou só uma fralda! O dia todo me observa com os olhos bem arregalados. Só tem um problema e que vem da genética do lado de lá (participação espermatozóidica do pai): Ela tem muitos gases. Não convém apertar muito.
"Linda da mamãe! Bem vinda à esse mundo cruel! Eu te protejo.".

sábado, 1 de maio de 2010

Cardiograma do coração de uma rã.

Sabe uma reflexão boa de se fazer antes de aprender qualquer coisa? A indagação de como alguém chegou àquela conclusão. E aí você percebe uma coisa interessante em tudo que o homem descobriu até hoje. Tudo parte de idéias simples. E essas idéias simples, eu ou você poderíamos ter tido. Até o computador - essa ultra-power-mágica máquina que não fazermos a mínima idéia de como chegou a potencialidade de hoje – vem de circuitos simples que foram amontoados numa grande sala. É do conhecimento de vocês que o primeiro computador ocupava todo o espaço dessa sala, pesando toneladas.

Sempre atenta a genialidade das coisas simples, essa semana eu me encantei com uma aula prática aqui da Faculdade de Ciência Médicas de Alfenas-MG. Uma aula da disciplina de Fisiologia com o propósito de analisar a atividade do coração de uma rã. O registro dessa atividade chamamos de ‘Cardiograma’. Cardiograma é diferente de Eletrocardiograma. O primeiro registra a atividade do coração: suas sístoles e diástoles. O segundo registra a variação dos potenciais elétricos gerados para promover o batimento.

A aula que narrarei foi para obter o Cardiograma. Assim, era importante o movimento do coração da rã: seja de contração, seja de relaxamento. O registro necessário a se fazer era quanto a variação da força de contração (inotropismo) e da freqüência de contração (cronotropismo). Modificações do cronotropismo e inotropismo foram induzidas aplicando substâncias como: adrenalina, acetilcolina, solução isotônica fria, solução isotônica quente, pilocarpina e atropina.

Mas como observar se o coração batia mais forte ou mais fraco? Mais rápido ou mais lento? Com os olhos? NÃO! Seu olho pode ser o mais esperto que existe, mas o pequeno coração da rã (mede 2 dedos mais ou menos) não lhe passa informações significativas só de olhar. Aí, alguém (que não sei quem é) desenvolveu uma engenhoca simples e brilhante, que permitia ver perfeitamente as variações na força e na freqüência com que o coração batia. É essa engenhoca que foi reproduzida na minha aula prática de Fisiologia.

Precedimentos:

Sacrifica-se uma rã pela destruição do seu sistema nervoso central. É feito um furo na região cervical do anfíbio seccionando essa parte da medula. O objeto pontiagudo caminha depois pela medula espinhal do anfíbio, destruindo-a toda. Em seguida, destrói-se a parte cerebral pelo mesmo acesso do furo cervical. Animal morto, hora de dissecar o coração. O esterno é arrancado num corte em ‘v’ e o bisturi rompe o pericárdio para se acessar o órgão. O coração da rã continua batendo por um bom tempo depois da morte. Isso porque esse órgão tem também uma despolarização que independe do Sistema Nervoso Central. O nosso coração também continuaria batendo numa morte por destruição do Sistema Nervoso. Mas fatores associados ao tamanho do nosso corpo e a diminuição do sangue que irriga o nosso coração, diminui para um tempo mínimo o período que o órgão bate independentemente.

Com o coração da rã exposto, hora de adaptar a engenhoca.

Um ganchinho (tipo um anzol) pinça o ápice do coração (a ponta do órgão). Nesse gancho é amarrado numa linha, que por si, é fixada ao terminal de uma vareta fina por uma massinha dessas coloridas de escola. A vareta se encontra suspensa em alavanca: Uma extremidade com a linha amarrada e a outra extremidade com uma agulha adaptada para cravar o registro de movimento da vareta. Na frente da agulha da vareta, um papel impregnado por pó de cânfora - e colado em um tambor - gira vagarosamente pelo movimento de um motorzinho adaptado. O coração da rã contrái, puxa a vareta, a agulha levanta e crava no papel (removendo o pó dele) uma curva ascendente que indica a sístole do coração. O coração relaxa, a vareta volta ao normal e o registro da agulha é uma curva descendente.

A altura da curva indica a força com que o coração bate (inotropismo) e o número de curvas indica a freqüência com que o coração bate (cronotropismo). Curvas muito próximas indicam uma freqüência maior.

Apartir daí, sem mexer no experimento armado, são adicionadas separadamente as substâncias já mencionadas: adrenalina, acetilcolina, solução isotônica fria, solução isotônica quente, pilocarpina e atropina. Alterações na curva de batimento normal são observadas.

Simples assim!

Foi daí que surgiu tudo de mais arrojado que hoje existe para entender o nosso nobre órgão. Foi daí que outras pesquisas se somaram para fazer todos os corações baterem bonito. ;-)




Os resultados, talvez, interessem mais às pessoas com conhecimento na área de saúde, mas os descrevo aqui.

Adrenalina (neurotransmissor do Sistema Nervoso Simpático): Inotropismo e Cronotropismo positivo. Força e freqüência do coração aumentam. O tamanho das ondas aumenta e se observa mais ondas num menor intervalo de espaço do papel.

Acetilcolina (neurotransmissor do Sistema Nervoso Parassimpático): Inotropismo e Cronotropismo negativo. Força e freqüência do coração diminuem. O tamanho das ondas diminui e a freqüência das ondas também.

Solução isotônica quente (Simula situação febril. Ringer na temperatura de 37º, que, para a rã, é hipertérmico): Inotropismo negativo e Cronotropismo positivo. Há um mecanismo compensatório. A febre leva a diminuição da força com que o coração bate, mas o órgão aumenta o número de batimentos por minuto.

Solução isotônica fria (Simula hipotermia. Ringer a 4º): Inotropismo positivo, Cronotropismo negativo. O mecanismo compensatório é inverso. O coração bate menos vezes por minuto, mas com maior força.

Pilocarpina (Deve ser administrada antes da Atropina. É um parassimpatomimético, ou seja, mimetiza o neurotransmissor do Parassimpático: Acetilcolina. Tem, portanto, mesmo efeito da Acetilcolina): Inotropismo e Cronotropismo negativo.

Atropina (Se liga aos receptores para acetilcolina e bloqueia sua ação. Mesmo efeito da Adrenalina): Inotropismo e Cronotropismo positivo.

Desdobrar a fé.

A lenda conta que...

... aquele que dobrar 50 mil origamis consegue o que quiser.

A menina tinha uma doença ruim, dessas que não se fala o nome para não atrair de jeito nenhum a possibilidade de ter o mal para si. Ela dobra um, dois e outros muitos papéis. O desejo final era a cura da coisa ruim.

Com 48 mil origamis, ela morreu.

(o @rodrigoocariz me contou)

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Fazendo mundos menos embaçados.


Eu nasci com os olhinhos meio ruins mesmo. Uma alteração conformacional do globo ocular que hoje bem entendo pelos estudos na área médica. Mas assim... eu descobri o milagroso objeto que limpava o mundo (óculos) só com sete anos, e na escola. A professora deve ter notado que a pequena menina bochechuda apertava os oim para conseguir entender alguma coisa do Be-A-Bá no quadro. E ela sentava bem na frente. E não adiantava muito.

O mundo é feio embaçado. Na época ela não entendia isso. Ela não conhecia o mundo cheio de detalhes, cores e contornos. Mas, mesmo assim, ela o achava bonito porque era simplesmente o único mundo que ela conhecia. Num certo dia então, descobriram que a menina precisava de óculos. Uma moça a chamou, junto com seus coleguinhas, para um teste de visão. Ela sentou na cadeirinha (essas pequenas mesmo, que só gente pequena senta e numa escola de gente pequena têm muitas). Na frente, um papel com um monte de “És” certos e tortos, de vários tamanhos. A instrução era: “Menina, do jeito que você ver o “É”, faça com o dedinho!”. Um olho é tapado com uma colher mesmo, para avaliação separada da acuidade visual. E Ixa! Com os dois olhos a menina bochechuda só viu os “És” de forma certa até a quarta fileira. De orgulhosa que sempre foi, sem admitir que não via os outros “És”, ela foi fingindo e errando. Resultado: Um óculos da Mônica cor de rosa e redondo; um monte de coleguinhas a chamando de “quatro olhos”; uma menina esperta e inteligente; e uma adolescente envergonhada, mas que, para o bem, dosou bem sua sensualidade e se dedicou muito aos estudos.

Hoje a menina cresceu, é essa marmanjona que acaba de completar 21 anos e que vos escreve. Ainda bochechuda, cabeluda e apreciadora desse mundo limpo e nítido que posso ver com os óculos.

Peça do destino, essa semana me tornei a moça que testava a visão de alunos de uma escola aqui de Alfenas - MG. Foi parte de um trabalho para créditos em uma disciplina da faculdade de Ciências Médicas. Na visita à escola, passaram pela gente muitas salas, muitas idades, muitos olhos de águia, muitos novos usuários de óculos. Mas um caso especialmente me emocionou. Uma menina bochechuda, cabelo castanho escuro, nariz empinadinho também. Mão gordinha usando esmalte rosa feito o meu. Ela falou certo até a quinta fileira de “És”, mas depois embananou tudo. Resultado: Um bilhete para os pais a levarem no Oftalmologista. A garotinha saiu com o papel sem entender muito do resultado daquilo tudo. Só desejei mentalmente assim: Vai viver seu mundo mais colorido e seja muito feliz nele!

domingo, 31 de janeiro de 2010

A gente assume o erro, mas não tem que ficar olhando para ele toda hora.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Agradecimentos. ("Minha Primeira Cirurgia")

Antes tarde do que nunca. Tenho que postar essa nota de agradecimento pela grande repercussão do texto "Minha Primeira cirurgia". O texto alcançou 15 comentários no blog (tira 1 que foi comentário meu). Nunca antes um texto foi tão comentado! Todos, comentários positivos. Comentários de pessoas desconhecidas que fizeram alusão até à outros textos do blog. Um comentário em especial me deixou bastante emocionada: de um ex professor meu, Marlon Henrique Teixeira.

Mas enfim, muitos leram e não comentaram. Mas outras tantas pessoas leram tudinho e comentaram num tópico de uma comunidade do orkut: "Vestibulandos de Medicina". Segue o link da comunidade

http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=116422

e logo abaixo, o link do tópico de divulgação do texto criado pelo meu amigo Johnny Everson.

http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=116422&tid=5397364471785875288&kw=namesmachuva

O tópico esteve mais ativo nos dias 28/10/2009 e 29/10/2009. Rendeu 51 postagens, entre elogios e discussões anatômicas de que a parótida fica na cabeça e não no pescoço. Na verdade escrevi que a paroidectomia é no pescoço. Só isso. Estou certa! A incisão é no pescoço. A parótida fica na cabeça. Confirmei os limites anatômicos (cabeça e pescoço) com minha mestra Evelise, graduada na USP. Ela achou o meu questionamento específico estranho e passou a me chamar de 'parótida' pelos corredores da faculdade desde então. Olha minha poker face para ela ¬¬'

Kkkkk

Para quem não tem orkut e a mercê de apagarem o tópico que encheu meu pobre ego, copiei as postagens na época e hoje upei tudo para eternizar. É só clicar aqui (http://twitpic.com/zxocv/full) para ver tudo que escreveram.

Obrigada gente! Obrigada mesmo! Vocês me fizeram sentir querida num momento que precisei.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Paz!

Aêeee! 2009 eu posso ter sido um fracasso como blogueira, mas eu vivi muito mais! Para vocês e para mim, outras grandes conquistas em 2010!
Saúde e paz! É tudo que a gente precisa.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Que bicho é esse?

Morar em apartamento te livra um pouco da presença de insetos. Casas sem terreiro e que fiquem localizadas em regiões mais centrais das cidades, também ficam menos acessíveis aos insetos da mata.

Em Alfenas – MG, eu moro em uma casa e perto de uma reserva verde. Na verdade, Alfenas é piquitita e para qualquer lado que a gente vai, encontra mata. Resultado: Dia sim, dia não, aparecem artrópodes estranhos nas minhas dependências.

Olha essa espécie de grilo-tatuado que apareceu por lá:

Gente! Ele tem uma ‘carinha’ tatuada nas costas! Juro que não foi eu quem desenhei com caneta para CD! Apesar de ter dado uma vontade louca de acrescentar uns chifrinhos ali para dar mais ibope à imagem. Hehe

Aprecie a simpatia do bichinho! Rindo ainda! Oh natureza mais bela essa!

A pessoa que vos escreve - uma semi-bióloga que abandonou o curso de Biologia no segundo ano de faculdade - ainda aprecia de mais essas miudezas vivas do mundo!

Que tal um besourro-rinoceronte?


Clica na imagem! Amplia ela! Salva para você! Põe de plano de fundo no desktop! Pruveita sô! =)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Pé! Eu te amo! Eu amo cada coisinha em mim!

Muitas coisas me aconteceram nesses últimos 2 meses e por indisposição – entre outras causas – nada foi parar no Chuva de Containers. Entrei em depressão senhores! Entenda DEPRESSÃO como um período de reflexão em que estive desmotivada a fazer coisas que habitualmente gostava. Não contei para vocês. Melhor assim. Este blog nunca nasceu para ser triste. Aliás, a fossa de Mariana Martins não durou muito tempo, graças a Deus! Então saibam que a ausência nesse blog nem foi por causa exclusiva de ocupação com os estudos, mas foi pelo tempo que tirei para tratar minhas descobertas depois da primeira cirurgia. É que caiu a ficha que o ser humano é uma casquinha. Que o bisturi, esse instrumento indecente, põe fim em alguém em poucos minutos. Agora, plenamente convalescida, sinto uma culpa danada de ter deixado de escrever coisas que participaram desse meu grande amadurecimento pessoal. Tudo aconteceu muito rápido. Nesse momento eu reconheço: foi preciso!

Algum dia você já acordou e disse: “Pé adorado! Lindo! Macio! Eu te amo!” ?

Que fosse “Pé áspero! Da unha encravada! Cheio de bolhas! Eu te amo!”?

Nunca né?

É por isso que todo mundo devia ver a cirurgia de amputação de um pé!

Eu não chorei. Eu não senti enjôo. Só fiquei em choque! A cirurgia foi mais rápida que todas as outras que já tinha acompanhado. Mais rápida que extração de um tumor de 15 centímetros de um testículo, mais rápida que a reconstrução de um fêmur comissurado, mais rápida que by pass de artéria poplítea. Amputar um pé durou 50 minutos! O motivo da amputação: Diabetes. Essa doença causa lesão das células que revestem o interior dos vasos sanguíneos. Assim, células de defesa no sangue não conseguem sair do vaso para combater uma infecção que comece por pequenos machucados. O resultado é um pé neuropático, infeccionado, que pode chegar perder a perfusão sanguínea. É o pé diabético. Se esse pé inútil não for amputado, torna-se problema para o resto do corpo. A infecção se espalha e a pessoa morre.

Para chegar ao ponto de perder um pé por esse motivo, muita omissão do paciente aconteceu. E, sim, o paciente que perdia o pé naquela mesa de cirurgia era de simples condição social. Ele não tinha consciência que as coisas chegariam a esse ponto e não foi instruído para evitar aquilo. O paciente era um velhinho que provavelmente chegou aos serviços de saúde para pedir ajuda calçando um chinelo havaianas azul.

A minha reflexão nessa hora foi admitir que a maioria dos pacientes que se humilham nas filas de atendimento do pronto socorro são de condição humilde. Falta instrução a essas pessoas para prevenção de doenças. E a saúde - que pelo SUS é deficiente de recursos e pelo meio privado não sai barata - falha justamente para quem mais necessita: quem tem pouca renda.

A segunda reflexão não foi pela injustiça social de privar atendimento de saúde a quem tem pouca renda. A segunda reflexão foi puramente existencial. É que bisturi circula a canela do paciente em 10 segundos. O pé doente é encapado por uma sacola plástica no início da cirurgia. A amputação prossegue pela dissecação de camadas. A pele o bisturi já levou! O cauterizador vai rompendo a gordura. Os vasos sanguíneos são amarrados e depois cortados pelo cautério também. O osso é cerrado por uma cordinha metálica dentada. ‘Cera de osso’ é o nome da massinha que veda o buraco que a medula óssea ocupa. O soro lava tudo e os pontos terminam de fazer o cotoco de perna. Um cotoco é uma coisa feia! Murcha! E, sim! Nessa hora dá vontade de chorar. O pé sai inteiro dentro do saco plástico de cor específica para restos hospitalares orgânicos.

Mas então... e se o bisturi subisse? Subisse... subisse... subisse...

Sobrava um corpo dentro de um saco plástico?


Passei esses últimos três meses formulando RESPOSTAS.

Não as tenho.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Oi! e Tchau!

Oh! Estou muito ocupada com os estudos! O Chuva de Containers não morreu!
Juro que, dentro de uma semana, eu postarei na frequência de 3 vezes por semana para me redimir da ausência de quase um mês e meio por aqui. Curuis!


Clique na imagem e a amplie!

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Minha primeira cirurgia.

Eu NÃO nasci de pai médico, nenhum parente próximo meu é médico. Então não tive favorecimentos familiares para conhecer a rotina interna de um hospital. Muitos que estudam comigo e cursam o primeiro ano na faculdade de Ciências Médicas de Alfenas, se gabam de já terem ajudado, por exemplo, a mamãe cardiologista ou papai obstetra em alguma cirurgia. Nesse mundo – realmente - quem alcança algum fio do rabo do gato é sempre quem tem contato ou quem tem esperteza e bedelhudeza.

Esperta e bedelhuda eu sou. Contato eu ando fazendo. Desconsidero médico mal educado e às vezes até encho a bola deles. Mas nem meu cabelo longo castanho escuro e nem meus olhos combinantes, também castanhos escuros, têm ajudado muito. Essa simpatia transparente da minha pessoa (Hehe) e a eximia aptidão para fazer a carinha do gato de botas do Sherek, não funcionam quando descobrem que quem está pedindo para assistir uma cirurgia é uma reles aluna do primeiro ano. Uma aluna que não tem conhecimento nenhum de práticas cirúrgicas. Que não tem conhecimento nem mesmo da forma correta de se vestir para entrar no bloco cirúrgico de um hospital.

Eu já tentei várias formas de entrar no HUAV (Hospital Universitário Alzira Vellano). A intenção era conseguir ver alguma coisa interessante no meio da agonia geral que domina os 3 primeiros anos do curso de Medicina. Nessa fase, estudantes estão limitados só a um monte de livrinhos grossinhos.

A primeira tentativa de adentrar no hospital ocorreu quando aproveitei de um trabalho da disciplina de Metodologia Científica. Criei a desculpa de que era necessário entrevistar alunos do quarto, quinto e sexto ano. Esses são encontrados nos seus estágios dentro do hospital. Belezura total! Cheguei nos corredores do Alzira, mas as portas das salinhas de lá de dentro estavam todas fechadas.

A segunda tentativa para ver coisas sanguinolentas no Hospital, era entrar para a Liga de Angiologia. Uma vez na vida e outra na morte, a Liga cede a cada membro a oportunidade de assistir a um plantão do Doutor João Batista. Um cirurgião famoso aqui da faculdade. Passei na prova da Angioliga. Felicíssima, o meu plantão seria dia 25 de setembro. Para atrapalhar tudo, final de agosto todos os plantões da Liga tinham sido cancelados por causa de casos da Gripe Suína no hospital.

Depois dessas frustrações, comecei a confabular estratégias assim meio cinematográficas, como entrar no lixo da faxineira que limpa o bloco cirúrgico. Digo ‘cinematográficas’, mas a possibilidade existe mesmo porque os lixos são bem grandões. Antes de cometer qualquer loucura, eis que me aparece um anjo todo de branquinho que é legal e já se tornou meu amigo. É ele Deodato Rubens, um acadêmico do 4° ano que já conhece um pouco da grande cidade que é o Hospital Alzira Vellano.

Mariana: Deodato, me leva com você para ver alguma coisa?
Deodato: Que alguma coisa?
Mariana: Alguma coisa que tenha muito sangue!

Ele entendeu o meu ‘muito sangue’ e – enfim – me colocou dentro de um bloco cirúrgico. Narro agora para você a experiência da minha primeira cirurgia. Não a primeira cirurgia que eu fiz, é claro, mas a primeira que assisti.
Eu combinei com o Deodato três e meia da tarde de ontem na porta do pronto socorro. Ele atrasou e eu cheguei mais cedo aflita com a possibilidade de estar perdendo alguma coisa que já estivesse na mira de um bisturi. Quando ele chegou, a gente entrou pela porta atrás da recepção sem nem comunicar ninguém. Nós estávamos vestidos de branco e eu ainda estava com o jaleco no ombro. Como assim era só abrir a porta e entrar? O Deodato parecia estar muito íntimo com o lugar.

Então, estando nos corredores - já familiares à minha pessoa - eu não vi a hora de ver uma daquelas salinhas de atendimento se abrirem para mim. O Deodato me apresentou alguns ambulatórios, mas esclarecendo para vocês leitores que são leigos no assunto, ambulatório é um lugar onde pacientes sem grande quantidade de sangue são atendidos. E eu queria sangue!

Mariana: Deodato onde é o bloco cirúrgico?
Deodato: Calma menina!
Mariana: Ah não Deodato! Cadê? E vai dar para ver alguma coisa? Tem cirurgia toda hora? E se não tiver cirurgia? Você conhece os professores (todos os médicos do HUAV são - por conseqüência - professores) que estão de plantão? E se eles não deixarem eu ver nada? Deodato! E se eu desmaiar você me acode? Deodato vamos logo!

O Deodato é calminho. Ele nem se altera muito com a minha euforia. A gente anda por um corredor, sobe outro, vira a esquerda e depois a direita. Aquele lugar é um labirinto. Passa segundo, passa minutos... o meu amigo pára de frente a uma porta. A placa acima dela avisava que estava perto de conseguir o que queria: “Bloco cirúrgico. Entrada restrita”.

O Deodato passa as primeiras instruções:
_ Olha! Você vai entrar nessa porta que é o vestiário feminino e eu vou entrar naquela outra para me trocar também. Tem umas roupas verdes dobradas nos armários e são estas que estão limpas. Você vai me encontrar depois que sair pela portinha do outro lado do vestiário. E ah! Me espera! Não ultrapasse a linha vermelha!

Não entendi a coisa da ‘Linha vermelha’ mas gravei as instruções. Entrei e que emoção! Eu estava vestindo roupinhas verdinhas de fazer cirurgia! Realmente haviam roupas bagunçadas e roupas dobradas. Peguei uma blusa e uma calça devidamente dobradas como dizia a instrução. Fui rápida e sai bem rápido, deixando jaleco e pertences num armarinho lá do vestiário mesmo. O Deodato demorou um pouco e enfim saiu de uma outra porta que dava para o mesmo lugar em que eu estava. Ele me olhou dos pés a cabeça e falou assim:

_ Minha filha! Você tem que tirar a roupa de baixo.
Que indecência! Eu pensei. Depois retruquei:
_ Debaixo tudo? Eu fiquei em dúvida oras!
_ Calcinha e sutiã você deixa!

Que manota! Volto para vestiário para me trocar toda de novo! E... haha, dessa vez eu lembrei de olhar no espelho. Modéstia a parte, eu fiquei muito sexy naquela calçolona verde e naquele camisão verde! Nunca me senti tão poderosa! Sai na porta de novo e dessa vez o Deodato aprovou. Ele me mostrou a linha vermelha no chão, que limitava a passagem do recinto que estávamos para o corredor cirúrgico. Antes de ultrapassar a linha vermelha, faltavam mais alguns detalhes para serem ajeitados no corpo: touca para conter os cabelos, 2 toucas para proteger os pés e máscara. Ai que chique!

O Deodato pergunta se tá tudo pronto e eu respondo que tá tudo mais do que pronto. Pé direito, passo a linha vermelha e... Tcharam! Estou no bloco cirúrgico. =)

Todo mundo ali estava igualsinho a mim e praticamente irreconhecível por causa da máscara. Ninguém identificaria a aluna do primeiro ano.

O bloco cirúrgico é cheio de salinhas e em cada uma acontece uma cirurgia diferente. As portas das salas estão semi-abertas e naquele ponto a única coisa a se fazer era pedir permissão para acompanhar algum procedimento que já estava ocorrendo. A gente - eu e o Deodato - conseguiu entrar em 3 salas. Eu vi 3 cirurgias num dia só! Os órgãos operados foram uma parótida (no pescoço), palato (céu da boca) e a mais interessante e sanguinolenta de todas: Uma fratura em muitos pedacinhos do fêmur (coxa).

As duas primeiras cirurgias não tinham muito sangue. Eram cortes pequenos e não dava para ver muito bem, pois o cirurgião trabalhava bem em cima do local. Já a do fêmur foi simplesmente o máximo! Sangue para todo lado! No chão, nos panos, nos milhares de instrumentos que estavam numa mesa de quase dois metros. O Deodato lembra de me passar as últimas instruções:

_ Não desmaie e não esbarre na mesa de instrumentos!

Eram instruções um pouco óbvias, mas para uma pessoa estabanada - feito eu - essas considerações eram extremamente úteis (principalmente a de não desmaiar). Eu não desmaiei, mas saí da sala umas cinco vezes suando frio.

Eu estava num açougue! Uma bitela de uma coxa estava na cama de cirurgia e um médico - compenetrado - fazia cortes, sugava o sangue do local, usava uma furadeira mesmo nos ossos! Ortopedia é marcenaria com açougue. Até um instrumento tipo martelo ele usava. Na mesa de instrumentos tinham brocas de vários tipos para a furadeira. Haviam ainda afastadores, tesourinhas de muitos tipos, pinças, espátulas, agulhas e coisas muito estranhas mesmo. Não dá para descrever. Na lateral da coxa direita que estava sendo operada no homem havia um corte de fora a fora. Esse corte é feito na cirurgia e a gente o chama de fasciotomia. Serve para romper a membrana que envolve o músculo deixando-o frouxo e livre das compressões necessárias para o acesso ao osso fêmur. Desse corte estava protuso um grande bife: o músculo Vasto Lateral! (Aham! Eu sei Anatomia! Kkk) Dessa carne vermelha brotava muito sangue! E o sangue vermelhinho recebia aquela luz branca e sinistra da sala que ilumina o local operado e quase toda a mesa cirúrgica. Atrás da cabeça do paciente, uma tela monitora os seus sinais vitais. Aparecem as linhas dos batimentos do coração, mas não reparei se havia algum barulhinho de ‘bip’ indicando normalidade do órgão. Uma bolsa de sangue pinga vagarosamente o sangue que vai repor a quantidade perdida na cirurgia. Também existe uma câmara com uma sanfona circular que parece produzir um ar, talvez de controle da respiração do paciente. Eu olho para a cabeça do homem sendo operado e, claro, ele está apagadão. O ortopedista pega mais um bisturi e abre mais um pouco a incisão. Eu aviso o Deodato: To passando mal! A gente sai da sala e eu sento num banquinho milagroso que aparece de repente. Abaixo a cabeça e chupo uma balinha que também apareceu milagrosamente. =)

Depois eu voltei. Entrei e saí da sala de novo ainda por muitas vezes. Era só eu me concentrar no cheiro de sangue que a coisa piorava.

A cirurgia deve ter durado umas 4 horas, mas não a acompanhei toda. Estava bom por aquele dia. A valia de tudo foi que eu resolvi a minha vida: Vou ser cirurgiã. De alguma coisa, mas eu vou ser. O Deodato me abriu as portas daquele hospital e agora eu vou entrar na cara dura toda hora que me sobrar um tempinho. Eles vão ter que engolir aquela que - um dia - será uma das maiores cirurgiãs (de alguma coisa) que esse país vai conhecer. Hihi

sábado, 3 de outubro de 2009

A tchaca tchaca tchaca tchaca... Ôôoooo!

Essa foto eu desafio o Ailton a tirar uma igual. Hehe

O normal de se ensinar para uma criança de um ano imitar é som de boisinho (béee!), cachorro, gato ou qualquer outro animal que seja do seu convívio. Não fugindo a regra, eu - com certeza – também devo ter passado por essa fase de engrandecimento liguístico que é aprender falar “au, au” e “miau”. No entanto, na minha infância, tive a figura criativa da vovó Bina para incrementar esse treinamento de onomatopéias. Ela me ensinou a imitar cigarras.

As instruções eram mais ou menos as seguintes:
- Mariana! Encha o pulmão de ar e fala: ‘A tchaca, tchaca, tchaca, tchaca’. Depois, até quando o fôlego não agüentar mais, você vai gritar: ‘Ôôoooooooooooooo...!’. E grita bem fininho.
Acho que eu nem sabia direito o que era uma cigarra, mas mesmo assim me empenhei para imitar uma. A vovó me inspirava quando fazia com perfeição aquele som engraçado. O final ‘Ôôoooooooooooooo...!” dela era como daquelas cancionistas mais velhas de festa de Reinado. Fininho, esganiçado e longo, o som – assim como o de uma cigarra – incomodava, mas era ao mesmo tempo simples e aconchegante aos ouvidos. Sério! Eu sentia prazer em ver dona Bina se esgoelando para imitar uma cigarra para mim.

Eu lembrei disso esses dias, porque Alfenas (MG) - esse mês - está totalmente invadida pelas bichinhas. Ninguém as desliga. As cigarras cantam de 7 da manhã de um dia às sete da manhã do outro dia. Na minha teoria nem é um canto, mas uma zombação da gente que passa todo ocupado de um lado para o outro o dia inteiro. Essa semana, eu estive feito uma formiguinha - para lá e para cá - resolvendo um monte de coisas e fazendo um monte de provas. Elas simplesmente pareciam aumentar a cantoria quando eu, ou alguém na mesma correria, passava. Se não conseguiam chamar a atenção, cigarras lançavam uma aguinha nojenta sobre as pessoas. E continuavam cantando, na verdade, acho que morrendo de rir por acertar a gente.

Mas e a aguinha? O que era? Alguma frutinha que ela apertava e saia água? Epa! A árvore não tinha frutinhas aquosas. Ugh! Seria xixi de cigarra? Meu Deus, que nojo! Mas antes fosse isso gente! Como desagradavelmente uma amiga conhecedora de cigarras me esclareceu, ela lança é esperma sobre a gente!
Jesus apaga a luz! Será que um cigarrão me veria lá de cima das árvores como uma cigarrona boazuda? Quanta taradesa! o.O

Bom, eu só não tinha conhecimento da metralhadora de espermas, mas cigarras - como eu já contei para vocês - me foram apresentadas quando bem pequenininha. Poucos têm avós com criatividade anormal ou nascem em uma cidade com um mínimo de verde para vir a conhecer cigarras. E fui descobrir isso quando uma garota de São Paulo-capital soltou algo assim: _ Que barulho é esse? Essa máquina vai atrapalhar as aulas!

Todo mundo aqui anestesia os ouvidos para não ficar surtado. A Faculdade de Ciências Médicas de Alfenas, que é muito arborizada, tem muitas cigarras, mas muitas mesmo! E elas realmente conseguem atrapalhar as aulas. Quando todo mundo está em silêncio, nem o barulho do ventilador tem ponderância mais.

Quarta eu fui arejar a cabeça perto da lagoa e do prédio da veterinária. Andando por lá, encontrei muitas cigarras em troncos bem baixos, próximas da altura dos olhos. Eram filhotinhos de cigarra, cigarras velhas, cigarrões tarados e – impressionantemente - casquinhas de cigarras de todo tipo! A cigarra se liberta de um esqueleto externo que grava exatamente sua forma sem asinhas. Pensei na vovó. Ela teria gostado de ver aquilo. Talvez, do céu, ela observasse ou me guiasse àquele lugar. Para mim, a partir daquele momento, vovó era uma cigarrinha que havia se libertado de sua casca material para cantar no meio das árvores.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Malandragem científica: Questionário de Morisky.

Um dos acompanhamentos necessários que o médico deve fazer é se o seu paciente toma o medicamento prescrito de forma correta. Nós, estagiários de medicina e os agentes de saúde ajudamos o médico do postinho a avaliar isso. Para tanto, fazemos visitas de rotina na casa das pessoas para certificar, inclusive, que elas tomam seu medicamento todo dia e nos horários certos. Só que é complicado você avaliar isso, porque - por exemplo - uma velhinha nunca iria admitir com todas as palavras que ela não toma o seu remédio direitinho. Na verdade, a maioria dos pacientes inadeptos a alguma medicação, sabem que estão errados. Eles omitem isso pelo medo de que o médico saiba do seu erro e negue um futuro amparo que o paciente novamente venha precisar. Contudo, na faculdade e no posto de saúde a gente é orientado a usar uma certa ‘malandragem científica’ para identificar esses cabeçudos que não entendem a importância de tomar o remédio que lhe foi prescrito: A gente aplica um Morisky neles!

Morisky (lê-se ‘morrisqui’) não é um golpe de jiu-jitsu, nem uma macumba braba para que o espírito interior da pessoa confesse que ela não está tomando remédio. Morisky é um questionário criado por alguém que se chama (ou chamava) Morisky. Grande esclarecimento! Hehe. São só quatro perguntas que prometem desmascarar o paciente que não está tomando seu medicamento. E é verdade que ele funciona! Apliquei um Morisky esses dias numa velhinha hipertensa e identifiquei o seu mau uso do captopril.

Questionário de Morisky:
1. Você alguma vez se esquece de tomar seu remédio?
2. Você, às vezes, é descuidado para tomar seu remédio?
3. Quando você se sente melhor, às vezes, você pára de tomar seu remédio?
4. Às vezes, se você se sente pior quando toma o remédio, você pára de tomá-lo?

Caro leitor, são quatro perguntas praticamente IDÊNTICAS! Mas o paciente que não toma remédio direito se enrrola em alguma dessas perguntas e você descobre um indivíduo-problema. Realmente funciona! Eu visitei essa semana a Dona Vera, de 62 anos. Perguntei se alguma vez ela tinha esquecido de tomar seu remédio (Pergunta 1). Ela falou que ‘NÃO!’, ‘NUNCA!’, e acrescentou: ‘Todo dia eu até peço os meus menino p’ra comprar leite de noite p’ra eu tomar de manhã junto com os comprimido.’ Na segunda pergunta, Dona Vera titubeou: ‘Quando eu durmo na casa do meu filho mais velho eu esqueço de levar o remédio’. Aí eu perguntei né: ‘De quando em quando a senhora dorme na casa de seu filho?’ Ela responde: ‘Todo fim de semana’. E eu: Glup! o.O

Belezinha! Em 30 dias de um mês, a Dona Vera não toma remédio em pelo menos 8 dias! Aí é hora de sentar com ela e com jeitinho, educação e paciência, explicar que sem o seu remédio uma veinha do cérebro ou do coração vai inchar, explodir e ela MORRE. Se a velhinha resolve ter um ataque cardíaco nessa hora pela consciência pesada, a gente põe a culpa no Morisky.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

O Incrível Homem de Blusa Azul.

Nesse feriado, felizmente, não estive sozinha a esperar pelo telefonema de um banana qualquer que pudesse me fazer sentir desejada. Os bananas disponíveis na minha vida não são pessoas sérias e nem sempre raciocinam que num feriado a pobre garota dos containers precisa de carinho. Para o fim de todos os males e fadigas, o super-homem loiro adivinhou que eu precisava ser socorrida.

Olha, eu não escrevo nada nesse blog que explicite assim a minha vida amorosa não. Mesmo porque é uma vida múltipla e cheia de causos. Mas o homem da blusa azul merece esse texto, porque, afinal de contas, ele já escreveu muitos outros para mim no blog dele. É só uma retribuição. Esclareço isso porque a gente não tem absolutamente nada e dentro de poucos dias ele arruma mais uma namorada (que não é eu) para sanar as suas necessidades sexuais e abranger a sua coleção de 10 indivíduas. Inclusive, do final de samana para hoje, ele já até arrumou uma falsa ninfeta qualquer para transar.

Mas enfim, me desculpem os meus outros tantos amores existentes. Em todos os casos, vocês - nobres possuidores do meu coração - não escreveram nenhum texto ou carta de amor para mim, não é mesmo? E mesmo assim, ainda escrevo citações indiretas para todos no blog inteiro. E mesmo assim, ainda me encontro solteiríssima a procura de homens seja de camisa azul, verde ou vermelha, mas montados num cavalo branco. Repetindo, é só uma retribuição.

Superman, apesar de não poder te dizer "Te amo!" e apesar de não termos trocado oficialmente nada mais que beijos, eu reafirmo que não descarto a possibilidade de criar um filhinho junto com você. Você me completa em potencial criativo, como nenhum outro homem me completa. É bom fazer piadinhas sórdidas e negras e ter alguém para entender e rir comigo. É bom ouvir piadinhas negras suas superhomem! É bom conversar de história, matemática, astrofísica, astroquímica, astrobiologia, tudo ao mesmo tempo! É bom te propor usar a cuequinha box de zebra (corrige lá que no seu blog tá ‘vermelha’) do manequim da vitrine e ver que você fica todo sem jeito porque é magrelo de mais para caber dentro de uma delas. É bom dividir com você milkshake de alpiste, comidinha digna de dois passarinhos de mente fértil. É bom desenvolver elucubrações sobre a frustração sexual do homem sentado sozinho no balcão e enamorando uma Kaiser. É bom bagunçar seu cabelo e fantasiar estar pegando um Hansons. Foi bom ter um personal elogiator. Foi bom ter alguém não-orgulhoso para andar comigo num fusca, mesmo sendo o carro velhinho e a motorista uma recém-possuidora de carteira.

Foi especial te conhecer, é especial te conhecer.

E as cores no nosso arco-íris não se restringem a minha calça roxa e a sua blusa azul. Afinal, sempre existiram Duendes Cor de Rosa.

Foi desse jeito que tudo começou...
_____________________________________
Texto de 07 de Julho de 2008

_____________________________________
Homem de Blusa Azul:
... sou transportado para o meu Jardim High-Tech. Vocês já ouviram falar dele, é onde planto meus cadáveres.
Porém, dessa vez não foi um dos meus que vi brotar da terra. Não... Estava lá, estirado de bracinhos abertos e lingüinha pra fora como um siricate do Rei Leão, um maldito cadáver de Duende-Cor-De-Rosa. Essa praga que já tanto amaldiçoei por aqui, que tanto fuça em meus domínios, que tanto quis matar, trucidar, exorcizar, e que nada adiantou, esses escrotinhos do Angeli, essa merda que empesteia meus pastos verdejantes, um redundante e fosforescente Duende Cor De Rosa. Tava lá, mortinho, um cadáver de duende.
Eu que sempre quis matá-lo, vejam só, agora ao vê-lo ali, esticadinho feito uma lagartixa, sei lá, bateu um remorso disfarçado de peninha dele. Quase chorei, se em meu rosto houvesse lágrimas. Mas não há. Muita coisa falta em meu corpo.
E o Duende, fiédamãe, lá, todo durinho, olhando pra mim dois olhinhos vidrados.
...
Não, não... parece morte morrida mesmo, não morte matada. Sei lá.
Ia estender a mão pra pegá-lo, mas vieram então da terra, do fogo, da água e do ar, uma série de outros duendes, não só Cor De Rosa, mas de todas as cores. Ora essa, eles sempre se esconderam de mim, mexendo no meu jardim enquanto eu distraído jogava video-game. Agora estavam todos perfilados, vindo numa marcha fúnebre, bem frente a meu nariz.
Vieram, sem nem ao menos me notar ou fugir assustados de Mim-Gulliver, gigante na terra dos duendes. Esnobaram minha presença como poucos o fazem, apenas carregando o cadaverzinho do diminuto duende (olha o pleonasmo).
Ele tinha nome, esse pequeno Satan que por tanto tempo me atormentou? Se tinha não estava na lápide, que era apenas uma pedrinha lisa entre a violeta e o condomínio BE HAPPY, que construí com exímia arquitetura para as formiguinhas e continua desabitado, às traças, até hoje. Lá, num buraquinho de um palmo, enterraram o finado amigo, em sua roupinha de Peter Pan, sua pele rosa-bebê já até meio empalidecida. Enterraram lá aquele banquete pra meia dúzia de vermes. Se é que ao menos vermes habitam aquele condomínio. Tô realmente ofendido pelo condomínio, construí com o maior esmero, com visão panorâmica e tudo. Elevador de serviço e um besourão na portaria que me deu o maior preju no Ministério do Trabalho. Magoei mesmo, mas isso não vem ao caso. Vamos nos ater ao velório que prossegue sem muita cerimônia.
Deveria eu dizer alguma coisa, quem saber fazer uma oração?
Bah, não quero interromper nada. Parecem tão resolutos em seus rituais pagãos ali, sem caixão nem velas, só um buraquinho que mais parece um pila de bolinha de gude.
Queria dizer que já o conhecia de longa data, desde a inauguração desse jardim, que o diabinho me pentelha desde sempre com suas fuçações noturnas. Mas não disse nada, apenas aprecie em silêncio aquele ritual bonitinho e comovente.
Depois de cobrir o buraco com terra e meia colherzinha de adubo (do MEU adubo, que era para as cebolinhas!), plantaram encima uma linda florzinha azul, que até agora estou por entender onde eles conseguiram.
De noite, quando o ritual acabou e os duendes estavam mais uma vez escondidos sabe-se lá onde (o condomínio BE HAPPY, quem sabe?), eu fui lá e pratiquei uma heresia e uma blasfêmia ao mesmo tempo, movido pela curiosidade e não por qualquer outro ímpeto anárquico que eu venha a ter, deve-se entender. Fui lá e cavuquei a covinha com a ponta do dedão. E não havia mais nada lá, nem ossinhos nem vermes, nem roupinha de Peter Pan. Só a raiz da florzinha, que crescia forte apesar do curto prazo de tempo.
Então eu sentei, peguei meu velho e antológico saquinho de bolinhas de gude, e me puz a jogar, com a alegria de uma criança - uma por uma - naquele redondinho Pila que era um túmulo.
Saudades do meu Duende Cor De Rosa.

_____________________________________
Mariana, a mulher da calça roxa comentando:
...
Considerando o fato de que esse duende é uma praga miserável que surgiu no antigo Egito e era chamada de 'flor roxa que nasce no coração dos trouxas', ...informo que o Duende Rosa costuma fingir de morto. Se a língua dele ficar roxo-amarelada e estiver esturricado no chão (como pode ter sido o seu caso), é porque o bichinho fez cópula e vai ter filhinhos. A absorção da criatura pela terra é o processo de gestação. Florzinha azul é aviso de ‘não perturbe!’. Duende cor de rosa não conhece contraceptivo e tudo vira uma praga danada!
_____________________________________

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Atendendo O Pedido.


Eu gosto de presentear as pessoas. Só que, às vezes, tenho problemas por comprar aquilo que eu queria ganhar e nunca o que realmente daria certo para a pessoa a ser presenteada. Só percebi isso depois da cara feia que a minha madrinha fez quando recebeu uma camisa verde com a Maria Bonita e o Lampião estampados.
Após essa crítica ocasião, a estratégia é sempre perguntar o quê a outra pessoa quer ganhar.

Dias desses foi aniversário de um amigo meu que muito considero. Semanas antes da data, já estava sondando antecipadamente alguma camisa com uma frase legal. Talvez com dizeres do Guimarães Rosa, escritor que o aniversariante tanto gosta. Talvez com o escrito por Rubens Alves, porque o meu amigo é professor. Haha. Tá vendo? Para se comprar um presente a gente tem que adivinhar possíveis coisas que a pessoa vai gostar. E se ele, mesmo sendo professor, odiasse Rubens Alves?

Sorte a minha, encontrei a dita cuja pessoa que precisava presentear no MSN e averigüei as preferências.
_________________________________
Mariana: Querido! Seu aniversário tá chegando né? O quê é que você vai querer ganhar de presente?
F.: Ah sei não! Será que eu mereço?
(As pessoas sempre se fazem de arrogadas, mas todas gostam de ganhar presentes).
Mariana: Claro que sim! Pede aí?
F.: Traz a lua para mim?
Mariana: Só a lua?
F.: E mais algumas estrelinhas. =)
Mariana: A lua e mais umas três estrelinhas então?
F.: É! E uma delas pode ser você.
Mariana: Eu? Mas... como é que eu me embrulho?
F.: Desembrulhe-se.
Mariana: o.O
_________________________________

Pedido é pedido e, modéstia a parte, eu tenho muita classe para realizar desejos. Hehe. O desejo do F. chegou num potinho e completo!

Cliquena imagem e a amplie!

Dando um zoom, dá para ver até a marca de baton na minha bunda. kkk

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Afastem canetas, facas e coisas parecidas!

Olha, eu não vou ser desonesta e falar que eu faço medicina por sacerdócio, por amor a profissão não. Tá certo que eu desejei esse curso desde pequena e que ‘médica’ era a minha resposta decorada para a pergunta ‘o que você vai ser quando crescer?’. Mas gente! No colegial eu era uma gênia na Matemática e na Física. E não é modéstia não, porque desafiava até o professor. A minha meta era conseguir os 100 créditos anuais nessas matérias e conseguia em quase todos os anos (exceto quando o professor era orgulhoso e resolvia me retirar um subjetivo ponto de conceito). Tenho guardado os históricos escolares que não me deixam mentir.
Eu faço Medicina por ambição. De dinheiro? Até que não, eu ganharia bem também se tivesse seguido a Engenharia Elétrica. Na verdade eu sempre me dedico muito ao que faço e gosto de estudar. E essa é a receita básica para ganhar dinheiro. Mas enfim, tem um tipo de ambição - bem interessante - que me fez optar por Medicina: a de me tornar uma super-heroína.

A idéia é mais ou menos assim: Imagine eu num jantar romântico. Estou lá num restaurante finérrimo trocando olhares com o meu affair. A gente pede um vinho e alguma comidinha chique que venha em bolinhas super estranhas. O meu pretendente, emocionado demais – melhor dizendo, nervoso - com a presença de uma morena linda, 1,69, olhos castanhos perto dele, começa a comer as bolinhas estranhas e engasga. Eu vou acudir claro! Sugiro que ele beba o vinho ou a água que também estava sobre a mesa. Não resolve. Aí entra a experiência acadêmica da super-médica-Mariana: Efetuaria a Manobra de Heimlich nele. Esse é um procedimento usado em primeiros socorros. Nada muito delicadinho: Perna direita entre as coxas do moço por traz. (Oua mesmo!) Depois é só enrolar os braços sobre a cintura da pessoa engasgada, apoiando as mãos 3 dedos abaixo do seu apêndice xifóide. Acima do umbigo, para os leigos. Por três vezes faz-se um aperto em J na cavidade abdominal. Pronto! Acabei a manobra de Heimlich. Não resolveu nada! O homem não desengasgou. Ele está ficando roxo. Aí eu pego uma faquinha e o tubo da caneta bic do garçom. Miro a faquinha entre o osso hióide e a cartilagem tireóide. Furo o pescoço do engasgado e ancoro a abertura do buraco com o tubo da caneta. Traqueostomia concluída! Não vou mais ficar encalhada porque meu pretendente não morreu de falta de ar. O restaurante inteiro parou horrorizado para saber o que aconteceu. Aí eu chamo o corpo de bombeiros, começo a tranqüilizar todo mundo que eu sou médica e assim que os transeuntes acreditarem, já posso começar a distribuir autógrafos. Hehe.

Mas... e se eu furei num lugar errado? É tudo tão pertinho.
Iiiii! Esqueci de esterilizar a caneta do garçom. Nem uma limpesinha de nada eu fiz!
Melhor sair correndo. E pensando bem, super-heróis nem dão autógrafos.

domingo, 16 de agosto de 2009

Uma comida.


Saindo do banho, minha irmã me chama atenção para a reportagem da televisão que fala sobre o preparo de um prato de Baiacu. Um peixe esquisito que incha, vira bola e tem espinho. Não dei trela. Trocando de roupa repensei o que ela falou e cai na risada. Como assim a minha irmã, totalmente leiga na cozinha, se interessa pela culinária de um peixe. Ainda mais esse peixe tão esquisito. Será que ela queria que eu cozinhasse um Baiacu para ela? Eu ein!

Voltei na sala e ela explicou que o seu interesse não era comestível, mas puramente pela técnica de preparo. Em alguns paises orientais esse prato é extremamente comum, mas não é fácil de ser montado. É que um único peixe desses tem um veneno capaz de matar 30 pessoas! A reportagem ainda mostrava que gourmets tinham de fazer prova para mostrar que realmente eram capazes de retirar o veneno do bichinho e descartá-lo da melhor forma. Descartar os restos do Baiacu em lixo comum já chegou a matar muita gente. Na Segunda Guerra, a falta de alimentos para as pessoas levou muitas delas a condição de aproveitar do lixo de restaurantes. O veneno do Baiacu nesses lixos, acelerava aquela morte que talvez seria de fome.